RESPOSTA AO PASSADO

     


APRESENTA
RESPOSTA AO PASSADO
JOSÉ ANTONIO JACOB



Do Livro Almas Raras 2ª Edição
Ed. ArtCulturalBrasil/2007


Existe um caminho da poesia à filosofia. Percebemos que poesia e filosofia, na obra de José Antonio Jacob, são indissociáveis.

Alceu Amoroso Lima diz: “Os poetas modernos têm medo do pensamento. Fogem da poesia filosófica. Ou então ficam no puro abstracionismo.”

Isto é o mesmo que afirmar que os poetas modernos evitam a poesia metrificada, aquela constituída de métricas e rimas e que conseguem levar a termo a coerência total da ideia original e concreta.

Da mesma forma acreditamos que somente uma minoria dos poetas contemporâneos enfrenta essa coisa dificílima: a poesia metrificada e rimada e a investigação da alma humana, sem descartar a beleza e profundidade das palavras em seu sentido próprio, sem esmerilhar a ideia poética.

Neste e noutros poemas o contemporâneo José Antonio Jacob reabre o acortinado daquilo então considerado “dificílimo” na poesia contemporânea. Neste poema o poeta usou quase todos os recursos do conjunto de versos que podem formar uma estrofe. Senão vejamos:

Monóstico; Dístico; Quarteto; Quintilha; Sextilha (maioria) e a Oitava.

"Resposta ao Passado" foi composto em Juiz de Fora, Minas Gerais, em 2001 e traz consigo o ecletismo da simplicidade; mais ainda: carrega no bojo dos seus versos a sincera voz daquilo que se tornou lembrança em sua vida, onde muitos leitores se recordarão de si mesmos em algum verso ou até mesmo numa estrofe inteira.

Desejamos a todos uma leitura agradável.

ArtCulturalBrasil



Resposta ao Passado
José Antonio Jacob


Eu costumava no cair das tardes
Atravessar a ponte Arthur Bernardes
E olhar de longe o azul desfalecer.
E lá de cima o morro feito um músculo,
Eriçado no muque do crepúsculo,
Espiava a natureza escurecer.

Eu me encolhia sob a noite calma
E deixava o fantasma da minha alma
Ir vaguear nas cintilações errantes.
E a brandura da noite me lembrava
As coisas doces que o meu pai contava
E que eram coisas simples e distantes.

Quem sabe estrelas de outros universos,
As que Bilac ouvia nos seus versos?

Depois de ter descido o escuro véu
E a noite estar aberta lá no céu
De não se ver as cores nem o chão,
Das chácaras, das várzeas e dos campos,
Uma constelação de pirilampos
Beliscava de luz a escuridão.

Zumbia em volta um revoar de insetos
E um grilo com seus saltos indiscretos
Lembrava o saltimbanco lá da praça
A cambalhotar no ar além da conta...
Numa janela a mariposa tonta
Rufava em vão as asas na vidraça.

Para a cidade eu ia distraído,
Mas sempre ouvia o som desiludido
Daqueles que passavam sem me olhar.
Então eu contemplava o céu distante,
Qual sonâmbulo que se encanta diante
De um sonho que o impede de acordar.

O Comércio abaixara suas portas,
Umas enferrujadas e outras tortas,
A escapar-se dos riscos das calçadas.
Os sapatos passavam apressados,
Corrediços, tropeados e afobados,
Feitos bandos de caça em retiradas...

Depois quando eu voltava do impossível
E punha os pés no meu mundo visível,
Mundo de casas, lojas e quitandas,
Eu vinha imaginando o amanhecer,
Pois logo o sol faria adormecer
Esse mundo de sombras das varandas.

Tinha um sobrado antigo e desbotado
Com um jardim sem flores, pendurado,
Qual um quadro sem cor na rua calma.
E sempre que eu passava ali defronte
Ouvia o burburinho de uma fonte
Soluçando no fundo da minha alma.

Na esperança de ser o choro que ela
Derramava do alpendre da janela,
Eu me agachava ali na doce espera...
Então podava os ramos da saudade,
Na mesma crença e na tranquilidade
Que o jardineiro espera a primavera.

E desde então quanta saudade minha
Dessa ingênua ruazinha cativante
Estendida na vida, ao rés do chão:
Parecia um pedaço de barbante...
Ela é a lembrança mais aconchegante
Que mora dentro do meu coração.

Suas casinhas baixas com jardins,
Cujos quintais entravam nos confins
Dos meus remotos sonhos de menino.
Nesse terreiro esplêndido das flores,
Eu semeei todas vindouras dores
Que iriam florescer no meu destino.

De dentro do meu fôlego ambulante
Eu não parava ali: seguia adiante!
Olhando nas vitrinas, pelas gretas,
O vulto do meu corpo refletido,
Que ia passando, curvo e entristecido,
Pelo roteiro longo das sarjetas.

E assim, do nada, vinham para as boêmias,
As voláteis criaturas de almas gêmeas.
As Almas Raras, íntimas e eternas,
Dos meus Poetas da Graça e da Harmonia,
Espíritos que espalham a poesia
Sobre os balcões molhados das tabernas.

Os cantores da métrica e da rima,
Também dos versos brancos, (feito o Lima),
Mestres da perfeição e da elegância,
Roberto Medeiros... Belmiro Braga...
Alves Júnior... Dormevilly e Zoquinha...
Enviando saudações lá da distância,
Lembrando-me que o tempo não apaga
O que ficou escrito numa linha.

Mas eis que o pintor inventor das cores
Eternizou o meu jardim sem flores
Numa singela tela de morim.
            Por ela entrei um dia em minha infância,
Andei, cresci e assim ganhei distância
E nunca mais ninguém soube de mim.

Desde então começou o meu caminho
De Sexta Feira Santa da Paixão...
- Vem meu filho para eu cortar-lhe as unhas,
Que logo vai passar a procissão!
Papai do Céu não gosta de mumunhas:
 Não me faças pirraça é dá-me a mão!

"Mas, Ele está mortinho, Coitadinho!"
- É procissão e Cristo morreu não!...
A minha mãe na minha frente orando
No rosário, a descrença ia desfiando
E mais adiante ia um Jesus de cera...
Eu vinha atrás, com meus pezinhos nus,
Olhando o capuchinho de capuz
Comer os doces nacos de uma pera.

Era o tempo sutil das carambolas
E as mulheres traziam nas sacolas,
Ainda, seu cheiro morno das cobertas.
E trocavam olhares confidentes;
Assaz desiludidas ou contentes
Passavam sonolentas ou despertas...

Do outro lado do rio havia a feira:
Tudo vinha do campo, de carroça,
Com os torrões da terra camponesa.
Frutos puríssimos da natureza
E dos ventres caipiras lá da roça.

Eu esperava uma semana inteira
Para ir lá, pôr a mão... Para mexer...
"- Olha a tangerina! Olha a beterraba!".
Agora eu sei que tudo isso se acaba,
Que o tempo passa sem a gente ver...

O tempo é breve instante que se estende
Na alegria ou na dor. E a gente aprende,
Que um dia o sol se mostra e noutro chove.
Eu perguntei ao tempo o seu encanto
E respondeu-me, suave, a voz de um santo:
- O tempo é a eternidade que se move!

E a vida prosseguia terna e mansa...
Era tão boa a vida, meu senhor!
-Festa junina, todo junho tem!
Zanza a moça solteira, corre a criança,
Passa o doente, o saudável e o doutor,
E detrás as famílias vão também.

Olha, lá! - Um varal de bonequinhos
E que desengonçados, coitadinhos!...
“- São de algodão, rapaz, chegue-se mais,
Compre-me algum que só custa dez reais!”
- Os bonequinhos (e eu lhe sou sincero)
Não têm vontade própria e não os quero!

E do outro lado as ilusões de seda,
Enfileiradas no ar, em alameda,
Com rabiolas de argolas bem compridas.
Era o balé sutil da sedução,
Que me tocava fundo o coração,
O decolar das pipas coloridas!

Eu via essas figuras multicores,
Rostos risonhos, palhacinhos, flores,
Em rodopios soltos pelos ares,
Como as aves sinuosas nos volteios.
Abaixo eu desatava os meus olhares
Daqueles tristes bonequinhos feios.

E a vida sempre andando para frente...

Ninguém ainda soubera na cidade
Do verdadeiro nome e a realidade
De uma anciã que arrastava a sua dor,
Andando pelas ruas aos tropeços,
Com seu saco de trapos aos avessos,
Que mágoa lhe causara esse amargor?

"Vida Apertada!" (riam os garotos).
Ela morava em seus tamancos rotos
E poderia ser Nossa Senhora,
Pois nos seus olhos cintilava a luz...
A mesma luz dos olhos de Jesus
Que eu vejo ali naquela cruz agora!

O céu é dos humildes e dos fracos?!
Ó Nosso Senhor dá-me compreensão!
"- Cortou seu pé José? Pisou em cacos?
E quem o fez perder o seu juízo?
 - Foi sem querer não houve essa intenção...
"- Não me interesso e aguente o seu prejuízo!”

Assim me repreendia uma vizinha,
Que já morreu faz tempo, coitadinha...

Meus dias eram de poeira e de bola...
“- Vem filho, que é preciso ir à escola!”
 E a meiga Heloísa vinha na janela.
Num triste dia um anjo pôs-lhe um véu,
Pediu que olhasse os filhos lá do céu,
Meu Deus! Mas que saudade sinto dela!...

Depois que a voz do pranto se acalmava,
(Também na dor o sonho nos conforta)
Lá fora, pela noite, eu escutava,
O soluço desse anjo em minha porta...

De tarde, em casa, havia a ave-maria,
Na vizinhança, em frente, eu sempre ouvia
O tilintar festivo dos talheres.
Na reza eu me pegava a imaginar,
As famílias reunidas no jantar,
Felizes homens, crianças e mulheres...

Quando cresci, fiquei desorientado
Com as coisas que eu via do meu lado:
- Fantasmas partilhando a minha mesa?!
Quanta desilusão! Quanto falsete!
E ainda vinha comer neste banquete
O espírito penado da Tristeza.

Tanta coisa infeliz havia ali
Que eu me assombrei na vida, e qual zumbi,
Fugi de casa, doido e sem destino.
Por isto eu tenho essa desesperança
De ouvir a voz faminta de um menino
No sorriso alegre de qualquer criança.

Era noite de festa na Matriz,
E eu vestido de anjinho e tão feliz
De poder chegar ao céu naquela hora
E tão pertinho da Virgem Maria.
E a minha mãe chorava de alegria
Por me ver coroar Nossa Senhora.

E que olhinhos piedosos Ela tem...
Minha Mãezinha me abençoa... Amém!



Do Livro Almas Raras
(11 de maio de 2001 - Rua Luiza Cólsera, 46 – J. Fora/MG)
   

         

Almas Raras 2ª edição - ArtCulturalBrasil/2007




POESIA DE BOLSO
ÍNDICE


Sonetos

7/ Desenho (Comentado)
8/ Sonho de Papel (Comentado)
9/ Florzinha (Comentado)
10/ Impulsão (Comentado)
11/ Bolhas de Sabão (Comentado)
12/ Fim de Jornada (Comentado)
13/ Amor -Próprio Ferido
14/ A Dança dos Pares Perdidos
15/ Afronta Impiedosa (Comentado)
16/ Almas Primaverais
17/ Casinha de Boneca
18/ Nós Somos Para Sempre
19/ Sonhando (Comentado)
20/ Faltas e Demoras
21/ Velho Órfão
22/ Silêncio em Casa
23/ Quanto Tempo nos Resta? (Comentado)
24/ Enigma
25/ Despercebimento
26/ Porta-retratos
27/ Roseiras Dolorosas
28/ Sonho Quebrado
29/ O Espelho
30/ O Palhaço (Comentado)
31/ Varal de Luzes
32/ História sem Final
33/ O Beijo de Jesus (Comentado)
34/ Musa do Ano Novo
35/ Natal dos meus Sonhos (Comentado)
36/ O Ano Bom do Bom Fantasma
37/ Domingo em Casa
38/39/ Elogio à dor do Desamor I e II
40/ Almas sem Flores
41/ Crença
42/ Além da Porta
43/ Alminha
44/ Carretéis
45/ Os Afogados
46/ Jardim sem Flores (Comentado)
47/ Mudança
48/ O Vira-lata (Comentado)
49/ Revelação
50/ O Vendedor de Bonequinhos
51/ Repouso no Sítio (Comentado)
52/ Tédio
53/ Crepúsculo de uma Árvore
54/ Noite Fria
55/ Oração do Descrente
56/ Não Despertes Sonhos Nos Meus Dias
57/ Falsidade
58/ Renascer
59/ Poodle
60/ Prisioneiro
61/ A Mãe e a Roseira
62/ A Saudade Sempre Pede Mais
63/ Sublimação (Comentado)
64/ Solidão (Comentado)
65/ Esperança Morta
66/ A Aurora da Velhice
67/ Mãos nos Bolsos
68/ Figurinhas
69/ História Boa
70/ Soneto para o Poeta Triste
71/ Minha Senhora
72/ Soneto de Natal
73/ O Pai e a Terra
74/ Minha Mãezinha
75/ Brinquedo
76/ Alegoria
77/ Almas Raras
78/ Angústia
79/ As Formigas
80/ Velhice Feliz
81/ Na Poltrona
82/ Oração do Dia dos Pais
83/ Ócio e Solidão
84/ A Prece do Capuchinho
85/ Último Delírio
86/ Canção do Rio
87/ O Verso Único
88/ Páscoa
89/ De Volta aos Quintais
90/ Amada Sombra que Persigo
91/ Eu Creio Sim!
92/ Coelhinho da Páscoa
93 Restou uma Poesia
94/ Meu Presépio

Quadra
95/ Veritas (Comentado)

Sextilhas
96/ Delírios de Maio (Comentado)
100/101/ Passeio na Cidade
102/ Natal na Rua da Miséria (Comentado)
104/105/ Uma Temporada na Roça
106/ O Fantasma que mora em meu Sofá
108/ Filhos de Minas







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(Acróstico Poético)
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Resposta ao Passado
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(especial ArtCulturalBrasil)

Além da Porta
(Vídeo de Dorival Campanelle)