Pág 13 - Amor-próprio ferido





AMOR-PRÓPRIO FERIDO
(José Antonio Jacob)


Anos e anos eu sinto as invejosas
Pontadas de ciúmes no meu peito
Ao recitar poesias primorosas
Com versos que eu queria tê-los feito.

Ah! Deus! Eu trago em mim as rancorosas
Mágoas e uma coroa de despeito
Das alheias estrofes luminosas
Que leio na penumbra do meu leito.

Mas tenho ainda uma frase que alimenta
A vingança da dor que me restou...
Caio em delírio e a minha febre aumenta.

E o espectro de loquaz, que acho que sou,
Murmura um verso que a demência inventa
Para um amor que nunca me escutou.





Introdução

Há tempos ouvi uma confissão de um grande amigo e poeta sobre a temática deste maravilhoso soneto, que brotou do âmago do poeta ímpar, José Antonio Jacob! É a questão de querer ser aquilo que não se é e nunca terá a necessária competência para tanto! A Literatura só viceja, muda e transforma pessoas de visão mais acurada!

”Eu não devia te dizer/
mas essa lua/
mas esse conhaque/

botam a gente comovido como o diabo.”

(Drummond)

E por que Paul Cézanne ilustra este soneto? Porque, assim como Jacob o faz em seus poemas, empregava este aspecto da percepção visual às suas pinturas em graus variados. A observação deste fato demonstra o desejo de Cézanne em capturar a verdade de sua própria percepção. Para Jacob, não existe o “siga o modelo”!

O título

O amor próprio é o amor que as pessoas têm por si mesmas. Muitas vezes as pessoas, por causa de fraquezas antigas, de crises mais recentes, não conseguem defender seus interesses para satisfazer suas necessidades. É um grande tema da psicologia e da psicanálise, já que faz parte do cotidiano dos profissionais destas áreas.
Para ter amor próprio, não significa que a pessoa deverá ter sempre seus desejos satisfeitos, para gostar de si mesmo, ser egoísta. O amor próprio faz com que as pessoas ajam positivamente, procurem evitar pensar no passado, quando há tristezas ou mágoas, ou feridas que doem na alma e no coração. O importante é que procurem sempre lembrar que foi mais uma experiência para poder evoluir, procurando tirar proveito daqueles acontecimentos. E foi o que aconteceu! José Jacob, um dos maiores poetas contemporâneos que cicatrizou a ferida causada e usou o seu controle emocional, na compreensão do desafeto! E deu-lhe, em troco, este maravilhoso soneto!

O primeiro quarteto


Anos e anos eu sinto as invejosas
Pontadas de ciúmes no meu peito
Ao recitar poesias primorosas
Com versos que eu queria tê-los feito.


Ciúme é comparação. E fomos ensinados a comparar, fomos condicionados a comparar, comparar sempre. Alguém possui uma casa melhor, alguém tem um corpo mais bonito, alguém tem mais dinheiro, alguém possui uma personalidade mais carismática.
Compare, continue comparando a si mesmo com todo mundo que você encontrar, e o resultado será um grande ciúme; esse é o subproduto do condicionamento da comparação.
De outra maneira, se você deixa de comparar, o ciúme desaparece. Assim você simplesmente sabe que você é você e ninguém mais, e que não há nenhuma necessidade de ser outro alguém. É bom que você não se compare com as árvores, senão você começaria a se sentir muito ciumento: por que você não é verde? E por que Deus tem sido tão duro com você - e com nenhuma flor? É melhor você não se comparar com os pássaros, com os rios, com as montanhas, com as lindas estrelas que cintilam no céu; do contrário você irá sofrer. Você só se compara com os seres humanos, porque você foi condicionado a só se comparar com os seres humanos; você não se compara com os pavões e com os papagaios. Senão seu ciúme seria bem maior; você estaria tão sobrecarregado de ciúmes que você não seria capaz de viver de maneira nenhuma.
A comparação é uma atitude muito tola, porque cada pessoa é única e incomparável. Uma vez que esse entendimento se estabelece em você, o ciúme desaparece. Você é apenas você mesmo: ninguém nunca foi como você e ninguém nunca será como você. E você também não precisa ser nenhum outro. Deus cria somente originais; ele não acredita em cópias carbono, Xerox, scanner e outros recursos modernos ou antigos!
Um grupo de galinhas estava no quintal quando uma bola de futebol passou por sobre a cerca e caiu no meio delas. Um galo chegou gingando, estudou bem a bola, e então disse, "Não estou reclamando garotas, mas vejam o trabalho que eles estão fazendo no vizinho ao lado".
Todo mundo tem ciúmes de todo mundo. Eu que o diga! Sou uma praga de mulher ciumenta, confesso! E com ciúmes criamos tal inferno, e com ciúmes nos tornamos muito medíocres, amargos!
E você sabe, poeta Jacob! Nunca copiou ninguém, mas é grandemente copiado por uns “tinhas” da vida! Creio que copiar, você saiba só o Ctrl...V... e C... do computador e olhe lá!
Metáforas se derramam na estilística mais que perfeita! Ai! Senti uma pontada...

O segundo quarteto

Ah! Deus! Eu trago em mim as rancorosas
Mágoas e uma coroa de despeito
Das alheias estrofes luminosas
Que leio na penumbra do meu leito.

Se todos estão na miséria, isso parece bom; se todos estão perdendo, isso parece bom. Se todos estão felizes e bem sucedidos, isso tem um sabor muito amargo.
Mas por que antes de tudo a ideia do outro entra na sua cabeça? Deixe-me lembrá-lo novamente: porque você não permitiu sua própria seiva fluir; você não permitiu sua própria felicidade brotar, você não permitiu seu próprio ser florescer. Daí você se sentir vazio no íntimo, então você olha para o exterior de cada um e de todo mundo porque isso é só o que você pode ver.
Você conhece seu íntimo e você conhece o exterior dos outros: isso gera ciúmes, mágoas, rancores, dependendo da fase de vida pela qual esteja passando! Os outros conhecem seu exterior e eles conhecem o interior deles: isso gera ciúmes. Ninguém mais conhece seu íntimo. Lá você sabe que você não é nada, não vale nada. E os outros parecem tão sorridentes exteriormente. O sorriso deles pode ser falso, mas como você pode saber que são falsos? 
Talvez seus corações sejam também sorridentes. Você sabe que seu sorriso é falso porque seu coração não está sorrindo de maneira alguma, ele pode estar lamentando e chorando. È como se a maldita mordaça o impedisse em dizer o que sente! Sei bem o que é isso!
Você conhece sua interioridade, e só você a conhece, ninguém mais. E você conhece o exterior de todos, e as pessoas fizeram o exterior delas parecer bonito. Exteriores são vitrines e são muito enganadoras. “Quem vê cara, não vê coração”! E daí, talvez, a penumbra no leito! Alíás, a antítese muito sutil, só para aqueles cujos olhos veem além do que está escrito: “estrofes luminosas x penumbra no leito”.

O primeiro terceto

Mas tenho ainda uma frase que alimenta
A vingança da dor que me restou...
Caio em delírio e a minha febre aumenta.

Ah! Se essa conjunção “Mas” não aparecesse... O processo doloroso prossegue. William Shakespeare (1564/1616) afirmava que “Guardar ressentimento é como tomar veneno e esperar que a outra pessoa morra.” E é por isso que você aguarda!Mas sentir tais coisas só tem lógica se for para aquele momento. Nunca mais! E sei que essa decepção, essa tristeza e essa mágoa já não existem mais. Não valeria  esse ressentimento em sua vida! RESSENTIMENTO – sentir novamente, infinitamente.
Se é verdade que a cada dia basta a sua carga, por que então teimamos em carregar para o dia seguinte nossas mágoas e dores? Há ainda os que carregam para a semana seguinte, o mês seguinte e anos afora...
Nos apegamos ao sofrimento, ao ressentimento, como nos apegamos a essas coisinhas que guardamos nas nossas gavetas, sabendo inúteis, mas sem coragem para jogar fora. Vivemos com o lixo da existência, quando tudo seria mais claro e límpido com o coração renovado.
As marcas e cicatrizes ficam para nos lembrar da vida, do que fomos, do que fizemos e do que devemos evitar. Não inventaram ainda uma cirurgia plástica da alma, onde podem tirar todas as nossas vivências e nos deixar como novos. Ainda bem.

O último terceto

E o espectro de loquaz, que acho que sou,
Murmura um verso que a demência inventa
Para um amor que nunca me escutou.

O poeta não tem certeza se é ou não loquaz, isto é,  fecundo, falador, fluente, gárrulo, palavroso, palrador, prolixo, tagarela, tagarela, verboso, volúvel em seu vocabulário, ao escrever sobre seu “ Amor-Próprio Ferido”, e por isso “acha” que é. Demente ou não, diz o seu verso ao ser amado! Superou o ressentimento, a mágoa daquele SER! Talvez guarde mágoa maior ainda da distância, que me arrancou os ideais e os planos das mãos sem misericórdia e me deixou à mercê do acaso. Da distância que antes me fazia sofrer por estar lá e que agora me tortura por não estar, porque "lá" não existe mais. Da distância que agora calhou de ser relativa, e que me mantém a milhas afastado, quando estou absorto em seu sorriso displicente do amor ensurdecido!

Conclusão

Não devemos nos esquecer do nosso passado, de onde viemos, do que fizemos, dos caminhos que atravessamos. Não podemos nos esquecer nossas vitórias, nossas quedas e nossas lutas. Menos ainda das pessoas que encontramos, essas que direcionaram nossa vida, muitas vezes sem saber.
O que não podemos é carregar dia-a-dia, com teimosia, o ódio, o rancor, as mágoas, o sentimento de derrota.
Acredite ou não, mas perdoar a quem nos feriu dói mais na pessoa do que o ódio que podemos sentir toda uma vida. As mágoas envelhecidas transparecem no nosso rosto e nos nossos atos e moldam nossa existência.
Precisamos, com muita coragem e ousadia, abrir a gaveta do nosso coração e dizer: eu não preciso mais disso, isso aqui não me traz nenhum benefício e  eu posso viver sem.
E quando só ficarem as lembranças das festas, do bem que nos fizeram, das rosas secas, mas carregadas de amor, mais espaço haverá para novas experiências, novos encontros. Seremos mais leves, mais fáceis de ser carregados mesmo por aqueles que já nos amam.
Não é a expressão do rosto que mostra o que vai dentro do coração? De coração aberto e limpo nos tornamos mais bonitos e atrativos e as coisas boas começarão a acontecer.
Luz atrai, beleza atrai. Tente a experiência!... Sua vida é única e merece que, a cada dia, você dê uma chance para que ela seja rica e feliz.
Guardo mágoa de mim por deixar que minhas mágoas levem meus sonhos, mas segurar comigo a vontade de um dia poder sonhar de novo, e maldigo toda a mágoa que me mantém distante do que um dia eu fui - antes de amar demais e sucumbir à saudade do tempo em que a mágoa não me tirava o sono.
Confesso que este soneto quase me enlouqueceu, pois em certos momentos, eu me senti uma farpazinha do próprio! Obrigada, poeta Jacob! Embora a minha mordaça permaneça!
Referências
1)ARISTÓTELES. Poética. Trad. Eudoro de Sousa. Porto Alegre: Globo, 1996.
2) AUERBACH, Erich. Mimesis: a representação da realidade na literatura ocidental. São Paulo: Perspectiva, 1994.
2)BARROS, José D'Assunção. Cézanne: considerações sobre a sua contribuição para a Arte Moderna. In: Cultura Visual. Revista do Programa de Pós-Graduação em Artes Visuais da Universidade Federal da Bahia (UFBA). vol.15. p.11-29. Salvador: EDUFBA, 2011.
3) CANDIDO, Antonio. O estudo analítico do poema. São Paulo: FFLCH-USP, 1993.
4) Coletânea de citações de Paul Cézanne. (em português)
5)DUPRAT, Marcelo. A expressão da natureza na pintura de Paul Cézanne.1998 (em português)

Poesia de Bolso - Ed. ArtCulturalBrasil/2011




POESIA DE BOLSO
ÍNDICE


Sonetos

7/ Desenho (Comentado)
8/ Sonho de Papel (Comentado)
9/ Florzinha (Comentado)
10/ Impulsão (Comentado)
11/ Bolhas de Sabão (Comentado)
12/ Fim de Jornada (Comentado)
13/ Amor -Próprio Ferido
14/ A Dança dos Pares Perdidos
15/ Afronta Impiedosa (Comentado)
16/ Almas Primaverais
17/ Casinha de Boneca
18/ Nós Somos Para Sempre
19/ Sonhando (Comentado)
20/ Faltas e Demoras
21/ Velho Órfão
22/ Silêncio em Casa
23/ Quanto Tempo nos Resta? (Comentado)
24/ Enigma
25/ Despercebimento
26/ Porta-retratos
27/ Roseiras Dolorosas
28/ Sonho Quebrado
29/ O Espelho
30/ O Palhaço (Comentado)
31/ Varal de Luzes
32/ História sem Final
33/ O Beijo de Jesus (Comentado)
34/ Musa do Ano Novo
35/ Natal dos meus Sonhos (Comentado)
36/ O Ano Bom do Bom Fantasma
37/ Domingo em Casa
38/39/ Elogio à dor do Desamor I e II
40/ Almas sem Flores
41/ Crença
42/ Além da Porta
43/ Alminha
44/ Carretéis
45/ Os Afogados
46/ Jardim sem Flores (Comentado)
47/ Mudança
48/ O Vira-lata (Comentado)
49/ Revelação
50/ O Vendedor de Bonequinhos
51/ Repouso no Sítio (Comentado)
52/ Tédio
53/ Crepúsculo de uma Árvore
54/ Noite Fria
55/ Oração do Descrente
56/ Não Despertes Sonhos Nos Meus Dias
57/ Falsidade
58/ Renascer
59/ Poodle
60/ Prisioneiro
61/ A Mãe e a Roseira
62/ A Saudade Sempre Pede Mais
63/ Sublimação (Comentado)
64/ Solidão (Comentado)
65/ Esperança Morta
66/ A Aurora da Velhice
67/ Mãos nos Bolsos
68/ Figurinhas
69/ História Boa
70/ Soneto para o Poeta Triste
71/ Minha Senhora
72/ Soneto de Natal
73/ O Pai e a Terra
74/ Minha Mãezinha
75/ Brinquedo
76/ Alegoria
77/ Almas Raras
78/ Angústia
79/ As Formigas
80/ Velhice Feliz
81/ Na Poltrona
82/ Oração do Dia dos Pais
83/ Ócio e Solidão
84/ A Prece do Capuchinho
85/ Último Delírio
86/ Canção do Rio
87/ O Verso Único
88/ Páscoa
89/ De Volta aos Quintais
90/ Amada Sombra que Persigo
91/ Eu Creio Sim!
92/ Coelhinho da Páscoa
93 Restou uma Poesia
94/ Meu Presépio

Quadra
95/ Veritas (Comentado)

Sextilhas
96/ Delírios de Maio (Comentado)
100/101/ Passeio na Cidade
102/ Natal na Rua da Miséria (Comentado)
104/105/ Uma Temporada na Roça
106/ O Fantasma que mora em meu Sofá
108/ Filhos de Minas







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(Acróstico Poético)
(Apresentação de Maria Granzoto da Silva)

Resposta ao Passado
(Especial ArtCulturalBrasil)

Mémória de Bibelô
(especial ArtCulturalBrasil)

Além da Porta
(Vídeo de Dorival Campanelle)

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